sexta-feira, 25 de março de 2016

















Hoje morreu uma amiga. Chorei, porque ela tem filhos lindos e imaginei a tristeza deles como se ela fosse a minha mãe. Senti uma dor aguda e depois um ódio tremendo. Quando digo, ninguém acredita, mas aquele lugar desgraçado, onde morei durante quase dez anos, tem uma energia manicomial, de loucura e de morte. Vi vários ali pirarem de vez e não voltarem. Teve quem se suicidou. Vários morreram, todos conhecidos. Saí de lá quando estava entrando na insanidade. Consegui escapar à tempo. Tava quase era bem louca. Ninguém me tira a ideia de que a culpa é do lugar. Um condomínio amaldiçoado, construído sobre uma terra sagrada. Era um grande cemitério de loucos e assassinos. Todo mundo sabe. ninguém fala. Ninguém aceita que essa carga toda de ódio e melancolia pairava sobre o lugar. tenho amigos queridos que aguentam no osso, por força de cabeça ou por não sintonizarem. Sinto a falta deles. Eu sou fraca, Sou esponja que absorve a vibração ao redor. E não sei transmutar isso. Só sei sofrer a mágoa alheia. Queria avisá-los, dizer que saiam de lá, como eu fiz. Mas já quando saí estava estigmatizada pela loucura. Ninguém dava crédito. E hoje não darão a mínima. Sou a falsa profeta que vê as coisas acontecendo e não tem legitimidade alguma no discurso. Queria gritar, fazer abaixo assinado, manifesto de desocupação na frente do lugar. Cartazes de FUJAM PARA AS MONTANHAS!. Mas eu sou só uma desertora. Saí fugida. Temo por eles. Sei que aquela morada um dia vai se afundar. Junto com a Ilha. Aquela maldita Ilha da magia negra.

quinta-feira, 24 de março de 2016

ATARAXIA



O Conto que não é um Conto (para Ana Farrah)
_______________________________________Anisio Candido

Algumas criaturas são hiperativas, percorrem longos caminhos e entram em infinitos labirintos, sempre com muita eficiência. Divertidas e entusiastas, nunca interrompem a busca. Caminham em uma direção, custe o que custar. E muitas vezes custa muito, precipícios as abraçam, paredes as beijam.. e elas continuam. Algumas vezes também enxergam miragens em desertos, sombra e falsa calmaria em tempestades solares.
Outras criaturas, também sagradas, mas distintas das primeiras, podem ter uma fase muito criativa e produtiva. Sim. Podem percorrer labirintos e caminhos longos. Mas, e isto é importante, não são conduzidas apenas pelo DESEJO da atividade, do fogo. Elas também são água, criaturas surpreendentes. Desafiam a origem da vida, testam as possibilidades o tempo todo, e continuam. Depois de tudo, um outro TUDO. Depois da fartura, outra FARTURA. Depois da vida... outra VIDA.
Essas pessoas da segunda espécie, depois da caminhada (longa para alguns, curta para outros), tem momentos ricos de compreensão, mas há também momentos de ataraxia. Isso não é doença, a doença é não ter isso. A Ataraxia é fundamental para estes seres. Depois de caminharem e entrarem ou não em labirintos, eles param. Param por muitos motivos ou por motivo algum. Quem não as entende olha e diz: "nossa, parou por quê? continue a busca! eu não paro nunca! olha minhas pernas que fortes são".
Mesmo se tuas pernas tem varizes e tuas mãos são delicadas ou não, Aqui não vejo defeito em minha condição. Não quero mudar a sua e nem lhe atrapalhar os objetivos, tua racionalidade. Eu não. Sou tapuia, e não sou tapuia. Aqui há muito mais confusão. Também já fiz todos os teus caminhos. E minhas pernas também são fortes, mas não tem varizes. Minhas mãos são delicadas, pois preciso delas pra fazer música, para escrever. O prazer na minha carne é mais do que físico. Agora parei. Suspendi também um pouco antes, todo meu juízo. Se há juízes num mundo, eu não sou o mundo.
Atônitos viam que ela se transformava. Em uma semana tudo havia mudado. E continuava imóvel. Por fora o mundo via fixidez. Mas era o mundo que estava parado enquanto ali tudo era um caos criador. O big bang explodiu mil vezes. Mil universos se contraiam em buracos negros intermináveis. A água suja escorria pelo ralo, em redemoinhos helicoidais.
Ela se transformava. Por fora parecia morta, mumificada. Mas as bandagens nasceram dela. que depois endureceu. Alguns chegavam perto e batiam no casco e recebiam de volta um som de eco do infinito. E logo algo começou a se mexer lá dentro. Ela não estava morta, só presa.

De repente. No inicio do outono, as 8:55 da manhã do dia 20 de março de dois mil e dezesseis, o casco começou a se romper. Começou a rachar mesmo. Que susto todos tomaram! Chamaram a tv grobo, o falsão.. e o gavião branco pra narrar aquilo. Chanine, um filósofo que se diz de esquerda mas não é, veio dar um veredito e, felizmente, falou o óbvio que muitos não viam, e disse : "é um casulo". Foi ótimo saber que alguém sabia. Mas logo ele falou filosoficamente " melhor refletir se é ou não bom ver isso nascer.. talvez.. melhor pensar mais.. vamos isolar isso.. vamos impedir que nossos filhos vejam isso.. afinal, a república não pode conter as ofensas aos deuses como o faz Homero! não.. "

Ali nascia algo. Quando abriu foi um susto, foi um sonho. Eu vi a luz entrando e se unindo com a luz que havia dentro de mim, mesmo eu sendo treva dentro de outra casca dura e imóvel, havia muita luz guardada em mim. E não me lembro de tudo. Mas sei que é pra fora que devo ir. Sair das minhas cavernas. É pra fora e para esquerda, isso me lembro. A esquerda não saiu de mim.
Agora sou outro, mas meus ideais permanecem. Outra pessoa. O mesmo e diferente. Olham minhas asas, pensam que sou apenas feliz, que meu voo não foi resultado de uma profunda transformação. Olham minhas mãos delicadas e se esquecem que já foram de pedra. Sim, borboleta. Colorida. Feliz. Sonhadora. Voadora.

Assumi meu mundo. Assumi meu texto. Mudei e mudo novamente. Não entendo as pessoas que são sempre as mesmas, sem mudar a vida, deformando-se. Seja líquido, seja a chama sempre em estados diferentes. Seja a água que não pode ser apreendida, que se molda na superfície daquilo que a permite estar. Ser. Amar.

sábado, 12 de dezembro de 2015

saída do inferno




voltei pra casa a roupa branca de pó químico meus ossinhos trincados
a falangeta esmigalhada do meu dedo médio os pés
cortados de andar descalça depois do tropeço
o desnorteio de três quatro cinco tapas na cara minha sapatilha espatifada
noutro canto do pátio
a brita pulando de dentro dos meus bolsos a areia grudada nos cabelos
depois de ser arrastada pelo chão

um resquício de dor
de pena
o escarro de ódio
o nojo
e
nenhuma lágrima


Ana F

terça-feira, 24 de novembro de 2015

diabólico








once upon a time

Eu era praticamente uma pobre camponesa de nobre coração
(ia todos os dias ao bosque, recolher lenha e tal)
and suddenly one day
o demônio apareceu e  [não se sei se por tédio ou falta de aviso]
com ele fiz um pacto

mas eu era bem esperta
o ritual era falso e a assinatura também
a alma eu escondi,
então deixei que usasse meu corpo como bem quisesse

quando ele percebeu o blefe
já era tarde
ele tava era bem fodido comigo
saquei todos os seus truques maquiavélicos
aprendi o que era perversidade

e diaba me tornei


Ana F

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

podre





Existe gente baixa.
Existe o chão.
Depois uma camada de terra, minhocas, argila
o substrato, os fósseis, o petróleo...

E então você,
por baixo de tudo.
Chegando no inferno.
Braços abertos
Caralho mole
o cú na mão.


Ana F

domingo, 8 de novembro de 2015

PERPLEXA



perplexa

em que momento se empodera um ser humano
ao ponto de dar-lhe o direito nefasto
de achar que o outro lhe 'pertence'?

alguém que te diz: 'minha', 'só minha'

(como uma criança problemática e o apego assustador
 num brinquedo capenga, um balão de gás hélio
 ou uma pipa, soltos da mão)

e te espanca, mete a porrada, cospe na tua cara
pra enfatizar a posse, o assentamento, usucapião do teu corpo
um poder que mal disfarça
a fraqueza ridícula, escancarada

as mãos gordas e estabanadas deixando tudo escapar
não possui nada. nunca possuiu.
não comanda nem os próprios esfíncteres.


Ana F




"Nós éramos sem começo, sem meio, sem fim, sem solução, sem motivo." (T B )

quinta-feira, 8 de outubro de 2015


























sou bem pior
do que dizem
por aí

bem melhor
do que pensam
os pervertidos
silenciosos

nem mais
nem menos

sou exatamente
o que fizeram
de mim


Ana F