sábado, 10 de setembro de 2016

pequenas maldições




preciso de ombros pra chorar 
quarentenas e novenas, 
velas, carolas carpideiras 
exorcismo e fogueira 
tamboreiro e tambor

um banho de ervas, incensos 
bonecos de vodu
preciso hoje mais do que nunca 
de ouvidos abertos e mais 
do que abraços, 
suruba e feitiçaria 

beijo triplo, assassinato, vingança
um carpete todo 
manchado de sangue
sacrifício e tortura violenta

preciso hoje machucar alguém 

é da minha natureza 
choramingar as perdas 
e mais que chorar, 

acreditar que sou perigosa rogando pragas 



Ana F

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

ninguém ousará dizer o contrário




preciso chorar os homens relapsos 
que passaram pela minha vida e levaram com eles 
uma parte importante de mim
um pedaço da minha orelha, uma cartilagem 
um ventrículo do coração, litros de sangue vertidos 

preciso chorar os homens que visitaram meu ventre, 
que saíram porta afora no primeiro grito 
preciso chorar o filho que não vingou.

preciso tanto chorar o pai (que não ficou)

o desgraçado que me comeu e não pagou

depois a fuga do primeiro marido 
o encarceramento do segundo 
e a viuvez 
pelo assassinato do terceiro

por todos eles, uma vida chorando

preciso chorar por aquele que está por vir
e que ainda nem conheço
mas sei que irei mastigá-lo junto com a minha dor

[rezarei por ele enquanto choro]


Ana F

sábado, 3 de setembro de 2016

eu estive à beira do calapso nervoso tantas vezes




já não saio mais na rua porque sei que a cidade inteira ri do meu fracasso matinal da minha paixão absurda por avenidas gigantes e noturnas de neon (isso era um segredo meu)
eu queria falar das pontes (a minha metáfora das pontes) pra dizer do que nos separa e também pra tornar concreto o que foi uma imposição policial registrada no papel: 100 metros de distância é o simbolismo do absurdo, "para minha segurança" _ eles disseram
em 100 metros eu morro fácil 
você sabe
eles sabem
e depois o medo de extintores de incêndio não consigo lembrar direito do que aconteceu (sei que voltei pra casa toda branca de pó químico) me disseram que eu tinha levado um banho de extintor agradeci aos céus por tu não ter jogado o extintor na minha cabeça faltou pouco pra isso acontecer (ou será que aconteceu?) e aquele traumatismo craniano?
meu inferno depois disso é pior que o looping eterno da Misty Day dissecando sapos não há um só dia em que eu não acorde pensando na dor e no remorso de ter encruzilhado nossas vidas de propósito acho até que aquela distância de 100 metros seria mais útil não só antes do espancamento mas antes mesmo do primeiro contato



Ana F

terça-feira, 23 de agosto de 2016

das coisas que eu disse um dia e quase nem lembro mais






quando te chamei de filhadaputa
 você não refutou
disse que a tua mãe 
era mais digna que eu, 
ao menos ela cobrava!

achei por bem me calar
foi a única vez que eu te dei razão


Ana F

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

DA PALIDEZ DOS DIAS





sou tetracromática, assim como as abelhas
tenho quatro tipos de cone na retina, 
e enxergo a maioria das cores na escala
bem como as coisas, antecedidas

  no entanto o amarelo me incomoda um pouco, 
por isso não há nada, ou quase nada desta cor 
no meu guarda roupas
de amarelo hoje só o riso (nicotinado)

eu deveria pensar que sou uma flor, porque não? 
uma crisálida bonita, porém patética. 
amarelinha e ordinária como a minha vida

Ana F 

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

ULTRAVIOLENTO




Aquela proposta ainda tá de pé? 
Hoje eu aceitaria ser barrigueira na Colômbia e você me encontrando na fronteira pra pegar a estrada na motinho de 50 cilindradas de Ponta Porã até Itajaí. 
Com a grana a gente pagaria nossa cocaína durante um ano, fora a comida e o aluguel. O cigarro deixa que eu garanto fazendo programa e você pode me agenciar e escolher com quem eu transo. Imagina você de cafetão e eu chegando toda arregaçada como sempre e você me daria banho e a gente se amaria com desespero....
Hoje eu toparia. Toparia você de novo. Tudo de novo. 
Fora o soco.


Ana F

domingo, 24 de julho de 2016

I just don't know what to do with myself


















ontem queimei o rosto com cera quente outra vez, arranquei a pele. outra vez. o livro de 'metafísica da saúde' indica que é falta de amor. concordo chorando. o gesto descontrolado me denuncia.
não sei o que fazer de mim, comigo, do meu corpo. não sei mais o que fazer do meu dia, do meu domingo eterno, do meu passeio terrestre, meus dias sem imaginação sem droga sem álcool sem sexo. não sei o que faço da sede, da abstinência brutal, sobretudo a abstinência me corroendo as vísceras. adotei dois gatos e mais uma cadela pra preencher o vazio existencial, além do meu trabalho voluntário de enfermeira involuntária, faxineira, cozinheira. em menos de um mês me graduei em farmácia tamanho o número de artigos que li sobre os fármacos, a medicação auto indicada não tem me ajudado muito, embora a sonolência pareça ser o mais próximo de estar chapada que consigo. Já disse isso outra vez e repito: eu não me basto. 

Ana Farrah