terça-feira, 11 de agosto de 2015

ainda o prato








sei que agora tu deve estar o próprio diabo,
o estômago queimando em labareda,
a tua esofagite carcando fundo no teu esôfago fodido...

imagino teu olho bochado de choro e cólera, e tua fúria
no ranger dos dentes (quantas lascas por quebrar??)
aí sinto uma ânsia do mal, uma gana de me rir por dentro,
que sei: deus ainda vai me castigar por isso.

E lembro da tua hérnia, aquela que te deixa impotente,
que não te deixa gozar nunca, inchando tuas bolas nojentas.
É. Tinha pena e vontade de gargalhar. Mas não podia...

Se um dia achei que sabia o que era vingança, eu tava errada.
Hoje sei. E ela desce quentinha...
Prato cru é teu caralho. Insosso.


Ana Farrah

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Dos boatos quentes







A vaca tomou um pé na lagoa
A vaca atolou o pé _ na balada
mergulhou na jaca _ uma jaca linda, E-NOR-ME

A VACA QUEBROU, ELA QUEBROU _ eles dizem
DÁ O TROCO! _ eles dizem

Vacas não quebram, elas RUMINAM, soltas
nos pastos vizinhos
(sempre mais verdes)

Se a vaca aprendeu a ser quebradeira,
foi o boi gordo
quem ensinou.


Ana F

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Gestalt






Éramos 5

amigos dentro de uma casa
circulando
pela cozinha sala cômodos todos e banheiro coletivo
falando pelos cotovelos, olhos, narinas

aí um dia rolamos para o sofá

e só então percebemos
que havia o carpete
e era de pelego
felpudo como um abraço
no inverno

caímos em estado narcoléptico
e ali fomos ficando
deitados
por semanas, meses
a apalpar-se até não haver mais espaço
que não fora maculado

fomos acordando, o primeiro, a tatear o outro
e assim por diante
sem aviso prévio,
um filme mudo, de
performance gestual

ninguém argumentou
ninguém reclamou
ninguém ousou fugir

aos poucos aconteceu de um e outro
voltar à lucidez
aos poucos

fui a última a levantar

exausta

Jamais havia socializado por tantas vias antes.

AMOR (?)












Um jeito subvertido de gostar

Ver o outro como um
dispositivo de recarga,
bateria energética
pra alma

chama de amor
não sabe segurar
o peso de uma ausência

nem aprendeu a lidar
com a própria companhia

e ainda assim grita
o tempo todo:

 _EU SOU FELIZ!!!


Ana Farrah

sexta-feira, 26 de junho de 2015



























chiclete para os olhos


um assalto básico

o pato da dívida da Grécia
reunião de bruxa em Bruxelas
a improbabilidade insólita 
de um paraquedista
alguém que se acha idiota
por continuar sentando num
banquinho de madeira

e essa náusea crônica


que só aliviou com o vôo de um gato

na carona do monomotor

junho sempre foi um mês estranho



Ana Farrah





Eu brinco, não levo à sério, pode falar. 
Sou infantil, imprevisível e inconsequente, pode xingar. 
Não compareço, marco e não desmarco, pode gritar. 
Planejo o sonho, telas e poesia, uma exposição inteira de arte.

Prometo todo amor do mundo, um coração, um rim.
Eu sei, sou convincente. Mas já te aviso 
(embora tu já tenha percebido): eu nunca cumpro.
É bom que me vejas assim, a bem da verdade, pois assim o sou. 

E se tudo que eu disse parecia real, é porque era mesmo. 
Naquele instante. 
Depois passa. Sempre. E eu sinto muito, embora pouco.

Sincerely.


Ana F

quarta-feira, 24 de junho de 2015








Então a puta véia, três filhos, um de cada pai, 
diz a falácia mais persuasiva de todas:

_A cabra que segure suas cabritas! Nem que tenha que amarrá-las.

Enquanto a desgarrada se esconde, dias, noites, 
fantasiando-se pra poder ir ali adiante, 
nem que seja pra comprar cigarros.

E o demônio à espreita.




Ana F