quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

sobre médicos e monstros...














Tenho andado com Dr Jekyll and Mr Hyde,
convivendo com pessoas bonitas e imprevisíveis.
Ok, adoro mistérios.(but,) as múltiplas personas
que me habitam já me bastam, tamanha confusão interna.

Enigmas diários me cansam;
Nível do quebra-cabeça: 'só pra gênio'
_ deveria constar no rótulo-testa de alguns_
O que não diminui o brilhantismo deles.

Mas não alcanço tal altura, não me cabe.
Lindos, venham. Mas tragam o manual.
Parece impossível transitar entre o deslumbre, o apaixonamento,
and suddenly o desencando e a decepção.

Minha inteligência emocional está obsoleta; 
ou entro em curto-circuito, ou ev
ito surpresas:
desapareço.


Ana F

HÁ VAGAS





Procura-se:
gente que sente, que não se contém,
que explode de emoção
adictos em dopamina, com predileção
por estados mórbidos
de paixão e sentimentos tortos

Precisa-se:
gente de alma espontânea, limpa, inteira
aberta a demonstrações públicas de afeição e
exposição ao ridículo sem medo

Prefere-se:

quem curte uma putaria, gente sem vergonha
de dizer palavrões ou sentir secreções,
com experiência em fetiches impróprios
e práticas sado-masô

Exige-se:
que seja visceral pra chorar, rir e beber
que esteja pronta pra tudo
o que ninguém imagina
e deixe a inocência
na pior esquina.

Paga-se mal, mas diverte-se bem.


Ana F

sob a roupa ou do que não se vê à olho cru



me disse

 _tu é bonita, né..?!

 e (olhos fechados)
 

a mão espalmada
em volta de
cada costela

mediu-me 

da crista
ilíaca ao 

tendão calcâneo 


Ana F

domingo, 22 de junho de 2014



Corria o olho pelo rejunte,
pelos frisos, a trinca do azulejo,
porque achava bem bonito o limo
encalacrado, o musgo, a mancha verde;

gostava do cheiro de umidade no banheiro,
 da papelada antiga, da tralha esquecida
nas caixas, as velharias todas e a poeira,
ah, a poeira...

E tanto amou, de tal fetiche obsessivo as cartas
amarelas e a mancha das fotografias que se foi
gastando, puída feito pano de chão,
a pele que nem terra de caatinga o olhar
acinzentado e essa vida, seca, de gente
que morreu mas vive
de naftalina.


Ana F

sábado, 5 de abril de 2014

da falta








Não rolou nenhum discurso.
Aconteceu de eu dizer que ia dormir. Só que não...
Aí tomei umas 2, 3, ou 4 caipirinhas
(que sempre tem aquela vodca emergencial)
e chorar até desidratar, ligar pro EX (!!) e continuar chorando
e ser pega no flagra do choro, com a cara inchada e a voz trêbada,
de calcinha e regata na rua.
Assim, ele me viu. Desnecessário. Me viu sofrendo.
e viu que prefiro sofrer sozinha e bêbada. sim.
E não sei se foi culpa, remorso, ego, pena ou brio...
mas ele veio todo e puro amor. E eu disse que queria terminar,
que ensaiei discurso e tal. E ele riu, riu de gargalhar.
 E me amou até doer (por dentro)


Ana F

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Conto do circo nonsense



Abria os trabalhos com toda profilaxia subliminar. 
O enigma era algo estrambólico, um ritual estrogonófico 
em sequência cadente e orquéstrica. 
Os objetos se contorciam de dor e êxtase Uriguelleriano. 
Tudo foi televisionado e o povo [polvo] de tentáculos 
em transe hipnótico, idolatrava o fato escafandrístico. 

A fotogenia era impecável, de uma assepsia jornalística, 
quase invejável. 
O Mago trazia de volta os corvos abatidos do Edgar 
(Oh, Poe, revire-se no caixão). 
Flores exóticas do grupo das pteridófitas brotavam 
vermelho carmim de dentro das bolhas de sabão e fumaça. 

Era um espetáculo brutal, coisa linda de se ver! Clap clap clap
___ a multidão aglomerada, olhos injetados na performance emblemática 
de uma bailarina prolixa. Ela rodopiava freneticamente no sentido anti-horário 
e soltava blasfêmias indizíveis em tom monocórdico, e dizia de um tanto, 
que todos escutavam mas ninguém lhe ouvia. 

O palco surgia cataléptico em qualquer esquina anoréxica, 
derramando maravilhas e disseminando epilepsias. 
A cidade inteira curvou-se, fascinada 
pelos artifícios pirotécnicos do show inoxidável.


Ana F  

segunda-feira, 30 de julho de 2012

eu lembro

Do cursinho


Era um platonismo só. Elas todas meninas, recém saídas do colégio; eles com ficha corrida em larga escala e boa lábia, ídolos da gurizada. Um ano. Mais ou menos o tempo que leva para o escracho tomar o lugar do elogio. Tinha uma festa no Garagem, ele ia dar uma palinha, aquela coisa, finge que não sabe, os caras da banda chamam o amigo da plateia, de ‘surpresa’. Ele faz que não quer, finge vergonha _ ‘não, não...hoje não’. Falsa timidez. O ascendente em leão não negava a sede de palco, ela sabia. Já viu a cena dezenas. No fim ele sempre subia e dava seu show, pulava tipo rock star, descia e grudava a boca dela sem dó, cinematograficamente. Ela que era só olhos pra ele. Era um casal bonito, verdade. Mas a felicidade exagerada era de mentira. Teatral. Os dois sabiam; eram atores da vida. Ficava bem pra imagem dele, o professor-cantor. Fazia bem pro ego dela, aluna-atriz. Um ano depois. Ela pergunta se tá gorda, todas as roupas jogadas em cima da cama. Tentou fazer uma saia do vestido de croché. _Vou assim... Ficou legal? _Tá muito beach! Pronto. Foi o estopim para a 3ª Guerra. O inglês dele era horrível, apesar da literatura francesa, o que deixava dúvida sobre a ambiguidade de sentido da palavra. Mas ela não entendia patavinas de moda. Só queria estar bonita! _Não vou. Tô horrorosa. Pode ir. Hora e meia de insistência e tentativas de perdão. Em vão. Ela queria vingança. E era irredutível no argumento. Ele foi. Ela emburrou. Tempos depois ficou sabendo que na falta da boca quando desceu do palco, ele grudou uma tiete loira e carente, que o aplaudia com olhos, dentes e todos os lábios. _Vaca! Nunca soube se a cena do beijo foi tão boa como a que eles encenavam. O namoro acabou. Mas até hoje ela espeta um alfinete por dia naquele boneco careca. _Maldito! E nunca mais usou vestidos de croché.