quinta-feira, 19 de março de 2015

Poema Impublicável










Diagnóstico


Vê-se que o mal não é saudade
nem solidão ou carência
Está claro, trata-se aqui
de uma síndrome 
de abstinência

Recomenda-se terapia de choque: 
separação de corpos
tendo em vista a forte dependência
química, física,
emocional

O que os mantém unidos 
é a própria loucura,
o vício da carne 
e do pó

São cúmplices na insônia, 
na ressaca,
na sua mútua destruição
e só.



Ana F 

sexta-feira, 6 de março de 2015

Sedada




Hoje a vida
me retém no casulo
bicho-confuso
o mundo me vê
mas não me vejo
o sangue flui torto
pelas veias

[ puro medo ]

um sentir contemporâneo:
o desconforto dos 'not-belonging'
o mal-estar do fora-de-foco

a vivência de pavores diários
a falta de sentido
a falta de sonhos
excesso de vazios..

Medos.

Todas as espécies de pânico
síndromes de vários tipos
ansiedade tá super 'IN'

Na meia luz
de doideiras
e exageros,
mais contras que prós,
imprevistos e vícios
já antigos.

Me perdi,
sou tantas coisas de uma vez
que depois esqueço.

[ intemporal ]

O dia de hoje podia muito bem ter sido um outro.
Amanhã vemos isso.


Ana F

quinta-feira, 5 de março de 2015

Bem se sabe que ali elas não prestam...







A névoa avançando feito praga do egito; seguimos num diálogo de surdos, amistoso no frio; além do fog londrino, o vento também nos cegava.
E era um lodo só, um pântano dantesco e umbralino, de onde se ouviam gargalhadas sonoras vindas não se sabe de onde, ecoando por todas as direções;
já não respirávamos, andávamos trôpegos, sôfregos, ofegantes de enxofre e naftalina.

Abriu-se um portal... e não era Nárnia, nem Avalon (embora as Brumas), mas um inferninho underground no subterrâneo de um galpão abandonado no meio do Triângulo das Bermudas.

E então, por não saber mais pra onde ir e inebriados pelo rarefeito ar, dançamos uma música inaudível. E dançamos tanto, a se enroscar [ pelos pêlos, pernas, cabelos], que nunca mais acordamos.

E eu sentia fomes. e era uma fome secular... e foi preciso largar tudo, o amor, a poesia, o cigarro. Porque já contavam alguns dias de jejum e o outro à gritar: _Essa moça tá diferente... já não me conhece mais!!

__Vai, isso vai desembestar

__te mamo
__te amoro
__te adorothy

__nunca mostrei junto...
__ta, tu compila daí, que eu compilo daqui

__vai ficar bom essa bagaça
__"A névoa, a dança e o jejum"

__PERFEITO.



Ana F


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

sobre médicos e monstros...














Tenho andado com Dr Jekyll and Mr Hyde,
convivendo com pessoas bonitas e imprevisíveis.
Ok, adoro mistérios.(but,) as múltiplas personas
que me habitam já me bastam, tamanha confusão interna.

Enigmas diários me cansam;
Nível do quebra-cabeça: 'só pra gênio'
_ deveria constar no rótulo-testa de alguns_
O que não diminui o brilhantismo deles.

Mas não alcanço tal altura, não me cabe.
Lindos, venham. Mas tragam o manual.
Parece impossível transitar entre o deslumbre, o apaixonamento,
and suddenly o desencando e a decepção.

Minha inteligência emocional está obsoleta; 
ou entro em curto-circuito, ou ev
ito surpresas:
desapareço.


Ana F

HÁ VAGAS





Procura-se:
gente que sente, que não se contém,
que explode de emoção
adictos em dopamina, com predileção
por estados mórbidos
de paixão e sentimentos tortos

Precisa-se:
gente de alma espontânea, limpa, inteira
aberta a demonstrações públicas de afeição e
exposição ao ridículo sem medo

Prefere-se:

quem curte uma putaria, gente sem vergonha
de dizer palavrões ou sentir secreções,
com experiência em fetiches impróprios
e práticas sado-masô

Exige-se:
que seja visceral pra chorar, rir e beber
que esteja pronta pra tudo
o que ninguém imagina
e deixe a inocência
na pior esquina.

Paga-se mal, mas diverte-se bem.


Ana F

sob a roupa ou do que não se vê à olho cru



me disse

 _tu é bonita, né..?!

 e (olhos fechados)
 

a mão espalmada
em volta de
cada costela

mediu-me 

da crista
ilíaca ao 

tendão calcâneo 


Ana F

domingo, 22 de junho de 2014



Corria o olho pelo rejunte,
pelos frisos, a trinca do azulejo,
porque achava bem bonito o limo
encalacrado, o musgo, a mancha verde;

gostava do cheiro de umidade no banheiro,
 da papelada antiga, da tralha esquecida
nas caixas, as velharias todas e a poeira,
ah, a poeira...

E tanto amou, de tal fetiche obsessivo as cartas
amarelas e a mancha das fotografias que se foi
gastando, puída feito pano de chão,
a pele que nem terra de caatinga o olhar
acinzentado e essa vida, seca, de gente
que morreu mas vive
de naftalina.


Ana F