sexta-feira, 26 de junho de 2015



























chiclete para os olhos


um assalto básico

o pato da dívida da Grécia
reunião de bruxa em Bruxelas
a improbabilidade insólita 
de um paraquedista
alguém que se acha idiota
por continuar sentando num
banquinho de madeira

e essa náusea crônica


que só aliviou com o vôo de um gato

na carona do monomotor

junho sempre foi um mês estranho



Ana Farrah





Eu brinco, não levo à sério, pode falar. 
Sou infantil, imprevisível e inconsequente, pode xingar. 
Não compareço, marco e não desmarco, pode gritar. 
Planejo o sonho, telas e poesia, uma exposição inteira de arte.

Prometo todo amor do mundo, um coração, um rim.
Eu sei, sou convincente. Mas já te aviso 
(embora tu já tenha percebido): eu nunca cumpro.
É bom que me vejas assim, a bem da verdade, pois assim o sou. 

E se tudo que eu disse parecia real, é porque era mesmo. 
Naquele instante. 
Depois passa. Sempre. E eu sinto muito, embora pouco.

Sincerely.


Ana F

quarta-feira, 24 de junho de 2015








Então a puta véia, três filhos, um de cada pai, 
diz a falácia mais persuasiva de todas:

_A cabra que segure suas cabritas! Nem que tenha que amarrá-las.

Enquanto a desgarrada se esconde, dias, noites, 
fantasiando-se pra poder ir ali adiante, 
nem que seja pra comprar cigarros.

E o demônio à espreita.




Ana F 

terça-feira, 23 de junho de 2015








Imprevisível

Se a tua tendência à loucura é natural
se o teu monstro estava enjaulado por pura falta de estímulo
se o que tu precisava era um alvo, uma fachada, um álibi

sinto dizer-te,
não tenho culpa da tua euforia incomodativa,
tua ira amedrontadora
da tua necessidade de mostrar-se (falso) herói
pra quem nunca pediu ajuda

[só se socorre quem precisa]

as tuas contradições
teu humor e furor instáveis, flutuantes
é culpa da tua própria doença, que salta à vista
a tua esquizofrenia não-diagnosticada (ou encoberta pelos teus)
é só um dos motivos do abismo

incompatível, dirias
eu digo, impossível manejar
as tuas urgências

Ana Farrah

terça-feira, 9 de junho de 2015


 O casal sensacional

 Eram dois malucos
 desencontrados
 e aquela carona
 despretensiosa
 até um morro
 do outro lado da cidade
 pra buscar droga
 encruzilhou os dois
 no meio da escadaria sem fim

 foi o primeiro casamento à primeira vista
 e o mais rápido já visto
 terminou mais ligeiro que os que rolam lá em Vegas

 depois de muitos socos
bastou-lhe o ponta-pé


 Ana F

sábado, 4 de abril de 2015

do sobressalto




dois segundos

entre o sono profundo e o salto [susto]
saio da fase REM, caio na vigília torpe
tenho uma arma na mão
na verdade, é uma raquete elétrica,
ridícula e funcional.
de matar bichos
miro e acerto: no alvo
sei que detonei algo,
[ pode bem ter sido um mosquito,
aqui do lado tem um mangue, morada propícia ]
nem sobra de vítimas
resquício
asinhas, sangue
nada
pra contar história.

ok, vocês vão achar que era sonho
como naquele dia
que eu vi duas naves
verde fluorescentes
dando rasante aqui, no meu céu limpo
da varanda de fumar

tudo bem.
sei o que vejo, ainda não perdi a lucidez
(a não ser naquele dia, mas... isso é outra história... e pouca gente viu)

só preciso registrar, é exercício de evitar o Alzhaimer
(pela tendência, que se mostra forte)

believe or not believe
é outra pauta
outro patamar na lista
de prioridades


Ana F

quinta-feira, 19 de março de 2015

Poema Impublicável










Diagnóstico


Vê-se que o mal não é saudade
nem solidão ou carência
Está claro, trata-se aqui
de uma síndrome 
de abstinência

Recomenda-se terapia de choque: 
separação de corpos
tendo em vista a forte dependência
química, física,
emocional

O que os mantém unidos 
é a própria loucura,
o vício da carne 
e do pó

São cúmplices na insônia, 
na ressaca,
na sua mútua destruição
e só.



Ana F