sábado, 5 de abril de 2014

da falta

não rolou nenhum discurso. Aconteceu de eu dizer que ia dormir. Só que não... Aí tomei umas 2, 3, ou 4 caipirinhas (que sempre tem aquela vodca emergencial) e chorar até desidratar, ligar pro EX (!!) e continuar chorando e ser pega no flagra do choro, com a cara inchada e a voz trêbada, de calcinha e regata na rua. Assim, ele me viu. Desnecessário. Me viu sofrendo. e viu que prefiro sofrer sozinha e bêbada. sim. E não sei se foi culpa, remorso, ego, pena ou brio... mas ele veio todo e puro amor. E eu disse que queria terminar, que ensaiei discurso e tal. E ele riu, riu de gargalhar. E me amou até doer (por dentro)

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Conto do circo nonsense

Abria os trabalhos com toda profilaxia subliminar. O enigma era algo estrambólico, um ritual estrogonófico em sequência cadente e orquéstrica. Os objetos se contorciam de dor e êxtase Uriguelleriano. Tudo foi televisionado e o povo [polvo] de tentáculos em transe hipnótico idolatrava o fato escafandrístico. A fotogenia era impecável, de uma assepsia jornalística, quase invejável. O Mago trazia de volta os corvos abatidos do Edgar (Oh, Poe, revire-se no caixão). Flores exóticas do grupo das pteridófitas brotavam vermelho carmim de dentro das bolhas de sabão e fumaça. Era um espetáculo brutal, coisa linda de se ver! Clap clap clap ___ a multidão aglomerada, olhos injetados na performance emblemática de uma bailarina prolixa. Ela rodopiava freneticamente no sentido anti-horário e soltava blasfêmias indizíveis em tom monocórdico, e dizia de um tanto, que todos escutavam mas ninguém lhe ouvia. O palco surgia cataléptico em qualquer esquina anoréxica, derramando maravilhas e disseminando epilepsias. A cidade inteira curvou-se, fascinada pelos artifícios pirotécnicos do show inoxidável.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

eu lembro

Do cursinho
Era um platonismo só. Elas todas meninas, recém saídas do colégio; eles com ficha corrida em larga escala e boa lábia, ídolos da gurizada. Um ano. Mais ou menos o tempo que leva para o escracho tomar o lugar do elogio. Tinha uma festa no Garagem, ele ia dar uma palinha, aquela coisa, finge que não sabe, os caras da banda chamam o amigo da plateia, de ‘surpresa’. Ele faz que não quer, finge vergonha _ ‘não, não...hoje não’. Falsa timidez. O ascendente em leão não negava a sede de palco, ela sabia. Já viu a cena dezenas. No fim ele sempre subia e dava seu show, pulava tipo rock star, descia e grudava a boca dela sem dó, cinematograficamente. Ela que era só olhos pra ele. Era um casal bonito, verdade. Mas a felicidade exagerada era de mentira. Teatral. Os dois sabiam; eram atores da vida. Ficava bem pra imagem dele, o professor-cantor. Fazia bem pro ego dela, aluna-atriz. Um ano depois. Ela pergunta se tá gorda, todas as roupas jogadas em cima da cama. Tentou fazer uma saia do vestido de croché. _Vou assim... Ficou legal? _Tá muito beach! Pronto. Foi o estopim para a 3ª Guerra. O inglês dele era horrível, apesar da literatura francesa, o que deixava dúvida sobre a ambiguidade de sentido da palavra. Mas ela não entendia patavinas de moda. Só queria estar bonita! _Não vou. Tô horrorosa. Pode ir. Hora e meia de insistência e tentativas de perdão. Em vão. Ela queria vingança. E era irredutível no argumento. Ele foi. Ela emburrou. Tempos depois ficou sabendo que na falta da boca quando desceu do palco, ele grudou uma tiete loira e carente, que o aplaudia com olhos, dentes e todos os lábios. _Vaca! Nunca soube se a cena do beijo foi tão boa como a que eles encenavam. O namoro acabou. Mas até hoje ela espeta um alfinete por dia naquele boneco careca. _Maldito! E nunca mais usou vestidos de croché.

sábado, 7 de janeiro de 2012

seca fonte





porque cansei dessa vidinha medíocre
besta que só vendo (de dentro)
aqui tem tudo, sobra do que nem quero

falta também de um tanto
daquilo que nem sei mais
o que era?
(questava faltando...) não tá na lista.

não existem listas

caneta em punho e no papel nem.

porque hoje quebrei os dedos dentes unhas
cansada de ser incômodo
aos outros e aos meus

me querem bem, acredito
bem-me-quer deu a última pétala
daquela florzinha sem graça

como era mesmo o nome dela (?)

do [des]conserto






Hoje me parti em centenas milhares pedaços partes moídas
tropeço nas quinas de meus próprios ossos

es pa ti fo

Depois junto tudinho

peçaporpeça

sempre falta outra ou uma
(vezes sobram pontas)
mosaico desencaixado

frestas e vãos
disfarçados
por onde me espio e vazo

ninguém sabe dos cacos (mal)grudados

pela ótica da ilusão
bela peça pra leilão

sábado, 24 de setembro de 2011

rito


Visto que o tempo é dúbio e a praia território neutro
minha zona de conforto é o vento
Posto que a lua gorda ainda cheia, a maré baixa cria espaço
fecho a roda, ateio fogo
o ritual me chama pro baile
hoje tem festa na areia...
Os passantes já se achegam e bem logo vão entrando
Elementais saltitam e fazem ciranda
na fumaça densa a (dissimulada) salamandra dança
os cheiros se misturam brincam e
correm pelas narinas, invasão
dentro do círculo fico invisível
a alma gira, voa, dissipa
rodam saias, flores, cabelo
Vejo tudo mais bonito.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Ladies on the Water

 Duas damas nascidas da mesma água vivem naquele espaço restrito  _ nadando no mesmo aquário, cruzam-se diariamente.  
Não interagem. 
Uma é superfície, precisa tomar seu AR; outra é submersa, presa nas profundezas. Sabem da existência uma da outra, sentem a presença alheia e dividem (indiferentes) o território aquático e o vácuo. 
Estão doentes, coitadas. Ninguém sabe, nem intervém. A única certeza que elas têm é a necessidade de sobreviver ao comensalismo, ao parasitismo, ao mutualismo cego surdo mudo. 
Inarticuladas. Sobram sinais e telepatias nem sempre amigáveis. 
Faltam palavras. 
[ e elas nem comem da mesma ração ]