terça-feira, 23 de agosto de 2016

das coisas que eu disse um dia e quase nem lembro mais






quando te chamei de filhadaputa
 você não refutou
disse que a tua mãe 
era mais digna que eu, 
ao menos ela cobrava!

achei por bem me calar
foi a única vez que eu te dei razão


Ana F

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

DA PALIDEZ DOS DIAS





sou tetracromática, assim como as abelhas
tenho quatro tipos de cone na retina, 
e enxergo a maioria das cores na escala
bem como as coisas, antecedidas

  no entanto o amarelo me incomoda um pouco, 
por isso não há nada, ou quase nada desta cor 
no meu guarda roupas
de amarelo hoje só o riso (nicotinado)

eu deveria pensar que sou uma flor, porque não? 
uma crisálida bonita, porém patética. 
amarelinha e ordinária como a minha vida

Ana F 

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

ULTRAVIOLENTO




Aquela proposta ainda tá de pé? 
Hoje eu aceitaria ser barrigueira na Colômbia e você me encontrando na fronteira pra pegar a estrada na motinho de 50 cilindradas de Ponta Porã até Itajaí. 
Com a grana a gente pagaria nossa cocaína durante um ano, fora a comida e o aluguel. O cigarro deixa que eu garanto fazendo programa e você pode me agenciar e escolher com quem eu transo. Imagina você de cafetão e eu chegando toda arregaçada como sempre e você me daria banho e a gente se amaria com desespero....
Hoje eu toparia. Toparia você de novo. Tudo de novo. 
Fora o soco.


Ana F

domingo, 24 de julho de 2016

I just don't know what to do with myself


















ontem queimei o rosto com cera quente outra vez, arranquei a pele. outra vez. o livro de 'metafísica da saúde' indica que é falta de amor. concordo chorando. o gesto descontrolado me denuncia.
não sei o que fazer de mim, comigo, do meu corpo. não sei mais o que fazer do meu dia, do meu domingo eterno, do meu passeio terrestre, meus dias sem imaginação sem droga sem álcool sem sexo. não sei o que faço da sede, da abstinência brutal, sobretudo a abstinência me corroendo as vísceras. adotei dois gatos e mais uma cadela pra preencher o vazio existencial, além do meu trabalho voluntário de enfermeira involuntária, faxineira, cozinheira. em menos de um mês me graduei em farmácia tamanho o número de artigos que li sobre os fármacos, a medicação auto indicada não tem me ajudado muito, embora a sonolência pareça ser o mais próximo de estar chapada que consigo. Já disse isso outra vez e repito: eu não me basto. 

Ana Farrah

sexta-feira, 25 de março de 2016

















Hoje morreu uma amiga. Chorei, porque ela tem filhos lindos e imaginei a tristeza deles como se ela fosse a minha mãe. Senti uma dor aguda e depois um ódio tremendo. Quando digo, ninguém acredita, mas aquele lugar desgraçado, onde morei durante quase dez anos, tem uma energia manicomial, de loucura e de morte. Vi vários ali pirarem de vez e não voltarem. Teve quem se suicidou. Vários morreram, todos conhecidos. Saí de lá quando estava entrando na insanidade. Consegui escapar à tempo. Tava quase era bem louca. Ninguém me tira a ideia de que a culpa é do lugar. Um condomínio amaldiçoado, construído sobre uma terra sagrada. Era um grande cemitério de loucos e assassinos. Todo mundo sabe. ninguém fala. Ninguém aceita que essa carga toda de ódio e melancolia pairava sobre o lugar. tenho amigos queridos que aguentam no osso, por força de cabeça ou por não sintonizarem. Sinto a falta deles. Eu sou fraca, Sou esponja que absorve a vibração ao redor. E não sei transmutar isso. Só sei sofrer a mágoa alheia. Queria avisá-los, dizer que saiam de lá, como eu fiz. Mas já quando saí estava estigmatizada pela loucura. Ninguém dava crédito. E hoje não darão a mínima. Sou a falsa profeta que vê as coisas acontecendo e não tem legitimidade alguma no discurso. Queria gritar, fazer abaixo assinado, manifesto de desocupação na frente do lugar. Cartazes de FUJAM PARA AS MONTANHAS!. Mas eu sou só uma desertora. Saí fugida. Temo por eles. Sei que aquela morada um dia vai se afundar. Junto com a Ilha. Aquela maldita Ilha da magia negra.

sábado, 12 de dezembro de 2015

saída do inferno




voltei pra casa a roupa branca de pó químico meus ossinhos trincados
a falangeta esmigalhada do meu dedo médio os pés
cortados de andar descalça depois do tropeço
o desnorteio de três quatro cinco tapas na cara minha sapatilha espatifada
noutro canto do pátio
a brita pulando de dentro dos meus bolsos a areia grudada nos cabelos
depois de ser arrastada pelo chão

um resquício de dor
de pena
o escarro de ódio
o nojo
e
nenhuma lágrima


Ana F

terça-feira, 24 de novembro de 2015

diabólico

























once upon a time

Eu era praticamente uma pobre camponesa de nobre coração
(ia todos os dias ao bosque, recolher lenha e tal)
and suddenly one day
o demônio apareceu e  [não se sei se por tédio ou falta de aviso]
com ele fiz um pacto

mas eu era bem esperta
o ritual era falso e a assinatura também
a alma eu escondi,
então deixei que usasse meu corpo como bem quisesse

quando ele percebeu o blefe
já era tarde
ele tava era bem fodido comigo
saquei todos os seus truques maquiavélicos
aprendi o que era perversidade

e diaba me tornei


Ana F