sábado, 12 de dezembro de 2015

saída do inferno




voltei pra casa a roupa branca de pó químico meus ossinhos trincados
a falangeta esmigalhada do meu dedo médio os pés
cortados de andar descalça depois do tropeço
o desnorteio de três quatro cinco tapas na cara minha sapatilha espatifada
noutro canto do pátio
a brita pulando de dentro dos meus bolsos a areia grudada nos cabelos
depois de ser arrastada pelo chão

um resquício de dor
de pena
o escarro de ódio
o nojo
e
nenhuma lágrima


Ana F

terça-feira, 24 de novembro de 2015

diabólico








once upon a time

Eu era praticamente uma pobre camponesa de nobre coração
(ia todos os dias ao bosque, recolher lenha e tal)
and suddenly one day
o demônio apareceu e  [não se sei se por tédio ou falta de aviso]
com ele fiz um pacto

mas eu era bem esperta
o ritual era falso e a assinatura também
a alma eu escondi,
então deixei que usasse meu corpo como bem quisesse

quando ele percebeu o blefe
já era tarde
ele tava era bem fodido comigo
saquei todos os seus truques maquiavélicos
aprendi o que era perversidade

e diaba me tornei


Ana F

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

podre





Existe gente baixa.
Existe o chão.
Depois uma camada de terra, minhocas, argila
o substrato, os fósseis, o petróleo...

E então você,
por baixo de tudo.
Chegando no inferno.
Braços abertos
Caralho mole
o cú na mão.


Ana F

domingo, 8 de novembro de 2015

PERPLEXA



perplexa

em que momento se empodera um ser humano
ao ponto de dar-lhe o direito nefasto
de achar que o outro lhe 'pertence'?

alguém que te diz: 'minha', 'só minha'

(como uma criança problemática e o apego assustador
 num brinquedo capenga, um balão de gás hélio
 ou uma pipa, soltos da mão)

e te espanca, mete a porrada, cospe na tua cara
pra enfatizar a posse, o assentamento, usucapião do teu corpo
um poder que mal disfarça
a fraqueza ridícula, escancarada

as mãos gordas e estabanadas deixando tudo escapar
não possui nada. nunca possuiu.
não comanda nem os próprios esfíncteres.


Ana F




"Nós éramos sem começo, sem meio, sem fim, sem solução, sem motivo." (T B )

quinta-feira, 8 de outubro de 2015


























sou bem pior
do que dizem
por aí

bem melhor
do que pensam
os pervertidos
silenciosos

nem mais
nem menos

sou exatamente
o que fizeram
de mim


Ana F

terça-feira, 11 de agosto de 2015

ainda o prato








sei que agora tu deve estar o próprio diabo,
o estômago queimando em labareda,
a tua esofagite carcando fundo no teu esôfago fodido...

imagino teu olho bochado de choro e cólera, e tua fúria
no ranger dos dentes (quantas lascas por quebrar??)
aí sinto uma ânsia do mal, uma gana de me rir por dentro,
que sei: deus ainda vai me castigar por isso.

E lembro da tua hérnia, aquela que te deixa impotente,
que não te deixa gozar nunca, inchando tuas bolas nojentas.
É. Tinha pena e vontade de gargalhar. Mas não podia...

Se um dia achei que sabia o que era vingança, eu tava errada.
Hoje sei. E ela desce quentinha...
Prato cru é teu caralho. Insosso.


Ana Farrah

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Dos boatos quentes







A vaca tomou um pé na lagoa
A vaca atolou o pé _ na balada
mergulhou na jaca _ uma jaca linda, E-NOR-ME

A VACA QUEBROU, ELA QUEBROU _ eles dizem
DÁ O TROCO! _ eles dizem

Vacas não quebram, elas RUMINAM, soltas
nos pastos vizinhos
(sempre mais verdes)

Se a vaca aprendeu a ser quebradeira,
foi o boi gordo
quem ensinou.


Ana F